sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O nosso nome é Corinthians

- Julho de 2017 

Por onde quer que eu ande, meu nome é Corinthians. Pelas ruas, tanto faz o meu nome próprio. Mas saibam que isso é um grande motivo de orgulho. Mais legal ainda é perceber que não sou o único. Em todos os lugares onde vou, encontro homônimos. Somos milhões de “Corinthians” espalhados pelo mundo. Basta estender o braço para um aperto de mãos sonoro, estalante, firme e sincero:
- E aí Corinthians, como é que você está?
- Eu tô bem Corinthians, e você?
- Ah Corinthians, sabe como é… na correria! E o Corinthians?
Aí sim, na terceira pessoa, intuitivamente percebemos que quando ouvimos “o Corinthians”, refere-se enfim ao Sport Club Corinthians Paulista, do qual fazemos parte de maneira visceral, orgânica e espiritual.
- Ah, Corinthians… o coringão tá foda. É só alegria. Corinthians, eu vou nessa porque o bagulho está descabelado no trampo.
- Firmeza, Corinthians, eu tenho que ir embora também.
- Valeu, Corinthians. É nois.
- É nois!
E partem cada um numa direção diferente, lutando pelo pão de cada dia, porém felizes por aquele breve e instantâneo encontro. Sem perceberem, disseram “eu te amo” um ao outro.
É uma satisfação incrível. A gente chega à padaria e o rapaz atrás do balcão já fala bem alto pra todo mundo ouvir: “Fala aí, Corinthians”. Você percebe que estão todos te olhando. Alguns sorriem de maneira afetiva, outros apenas baixam lentamente seus olhares:
- Melhor impossível! – você responde.
- Coringão tá foda, né?
- O bagulho ficou louco!
- É nois! Pão na chapa e uma média?
- Acho que hoje eu vou de misto quente. Manda também um suco de laranja. Ah, um café expresso.
E o lanche vem bonito. Deliciosamente recheado. O suco de laranja vem até com aquele chorinho num copo separado. Café bem tirado. Os sorrisos afetivos que se espalhavam pelo local se aproximam de você pra trocar uma ideia sobre as novidades do Mosqueteiro do Parque São Jorge, ou mesmo para contar as histórias dos jogos antigos. Os olhares resignados assim permanecem, apenas nos suportam.
E assim você segue seu dia. Chega na portaria do prédio e logo escuta: “Fala Corinthians, bom dia”. Entra no escritório e o ambiente se divide. Uma parte tem liberdade com você, independente da função que exerça. Pode ser diretor ou faxineiro. Ele sabe que basta chegar à sua mesa e dizer “Corinthians, tudo bem?”, tocar no seu ramal e sem desnecessárias introduções ou apresentações, iniciar a conversa dizendo “Oi Corinthians, deixa eu te falar…”. Com outros não. Faz-se necessário um nível de formalidade maior e atenção aos trâmites, normas e minúcias dos procedimentos. Fazer o quê? A vida é assim…
E quando você descobre que a garota dos seus sonhos tem tudo a ver com você? Que vocês têm mais em comum do que imaginavam?
- Oi Corinthians, tudo bem? – fala ela numa melodia doce e te abre um sorriso lindo.
- Oi Corinthians, meu amor. Você tá cada dia mais linda.
- Ah, Corinthians, para com isso, você diz isso pra mim e pra torcida inteira.
- Que nada, meu amor. Você bem sabe que eu sou Fiel desde que nasci.
- É da Fiel eu sei que você é mesmo.
E os dois riem satisfeitos.
Mas quando o amor é pra valer, a coisa fica muito mais séria:
- Ah, Corinthians. É foda porque eu te amo demais.
- Também te amo, Corinthians. E vai ser pra sempre. Por toda minha vida.
Passam uma linda noite juntos e colados, sem se importar com o calor. Se abraçam afetuosamente. Transpiram mais um pouco. Gostam sinceramente um do outro. “Não te troco nessa vida por ninguém porque eu te amo, eu te adoro, meu amor”. Quando enfim estão extasiados e completos, olham um para o outro com um sorriso safado e dizem juntos “Vai Corinthians!”
- Amanhã é aniversário da minha mãe.
- É verdade! Mas tem jogo do Corinthians bem no horário.
- Ah, então tá bom. A gente passa mais cedo pra dar um beijo e deixa um presente pra ela.
- Boa! Fim de semana a gente leva ela pra jantar. Vai ter jogo de novo? É no sábado ou no domingo?
- No domingo. Mas a gente a leva pra comer uma feijoada no sábado, certo?
- Certo.
Mas não é sempre com carinho que nos chamam por “Corinthians”. Tem os “antis” que quando a gente aponta na mesma calçada já dá pra ler o pensamento: “puta que pariu, lá vem o Corinthians, justo hoje. Tá insuportável”. Inevitavelmente você chega perto dele e ouve em tom nervoso:
- Fala o Curinthia (sem conseguir disfarçar a fúria que transborda no canto dos lábios e na testa franzida). Tá feliz, né?
Você responde sem querer pisar muito no calo do rapaz: “Opa, sempre. Só alegria”. Vai embora sem prolongar muito a conversa, mas consegue ouvi-lo resmungando em sussurro: “O cara é legal, mas sai pra lá, Corinthians. Deus que me perdoe! Dá vontade de sumir!”.
É como se fizéssemos parte de uma sociedade secreta, mas acontece que somos muito escancarados. Então não dá pra ser sociedade secreta. Estamos mais para uma grande irmandade.
Somos “Os Corinthians”. Dá pra entender porque o apóstrofe do “Corinthian’s team” foi abolido e numa aportuguesação maravilhosa nos fizemos Corinthians, ao mesmo tempo plural, singular e com uma possessividade coletiva.
Temos uma incrível sensação de pertencimento. Temos instrumentos de solidariedade indestrutíveis. Temos um destino compartilhado. Padecemos das mesmas dores e também nos emocionamos nas mesmas alegrias.
Compartilhamos dos mesmos sonhos para o futuro. Sinceramente nos amamos. Gostamos de estar próximos uns dos outros. É uma grande alegria quando nos reunimos nos dias de jogos, seja no estádio ou em casa, fazendo churrasco ou dividindo o mesmo sanduíche. Nosso lanche sempre vai ser dividido em dois, três, quatro ou cinquenta pedaços se necessário. E num milagre divino o lanche vai alcançar a todos.
A gente abre a porta da nossa casa para os outros Corinthians. Recebe a todos com muito amor. E gente também vai na casa dos outros Corinthians e nos sentimos à vontade. Abrimos a geladeira. Afinal, em todos os cantos da casa está estampado o nosso nome.
Nunca quisemos nada do Corinthians, ficamos suficientemente felizes somente por carregar o seu nome. Mas pare pra pensar, mesmo sem pedir nada, quanta coisa o Corinthians nos deu? Quantos amigos, irmãos e amores? Quanta felicidade carregamos em nossas vidas? O Corinthians nos dá a certeza que somos filhos de Deus.
O Corinthians nos fez irmãos e por isso carregamos todos o seu nome.
Somos milhões de xarás.
Muito prazer, nosso nome é Corinthians!


O sinalizador é só um símbolo, mas os símbolos tem poder

- Junho 2017


Entra em campo o Corinthians. A Fiel de pé recebe o time que aponta no gramado. As bandeiras tremulam na arquibancada. Um mar de bandeiras. No rosto do povo se vê o orgulho de quem levanta com a força dos braços a bandeira do timão. O barulho é ensurdecedor. Misturam-se na atmosfera o grito da torcida, os tambores rufando, os fogos de artifício. Eram muitos fogos! Explodiam em cima de nós. A gente gritava: Corinthians! Corinthians!
Gritávamos todos usando todo ar que dispúnhamos nos nossos pulmões. Toda força que emanava da garganta. Mesmo assim não conseguíamos ouvir as nossas vozes porque o barulho era muito alto. Eu era um menino. Mas se essa festa fosse hoje eu continuaria sendo menino. Desde a arquibancada não se via mais o campo. Apenas as bandeiras a nossa frente e muita fumaça. Na falta de outro material, eu trazia comigo um rolo de papel higiênico. Olhei para meu pai. Atirei com força o rolo para o alto segurando o papel. Vi o rolo descendo pela arquibancada. Era apenas mais um risco naquele mar de papeis e panos alvinegros.
Olhava para os lados. Via o povão. Gente verdadeiramente simples. Gente desdentada. Com cara de pobre. Quem não era pobre ficava junto e se abraçava. Ali era uma favela só. Um senhor que eu não conhecia, do nada me segurou pelos braços e me levantou. “Corinthians! Corinthians! Corinthians” gritava com os olhos arregalados em minha direção. Era muito especial participar de tudo aquilo.
Acidentes poderiam acontecer? Não sei. Segurava a mão do meu pai. Certamente nada me aconteceria. Correr aquele risco do imponderável em meio à multidão me fazia um soldado. Sentia-me já um homem. Estava feliz naquela atmosfera. Eu era cúmplice de toda aquela gente que nunca havia visto na vida. Naquele momento eu tinha certeza que fazia parte de um povo. Que não estava só. Havia um sentido de coletividade que eu não conseguia entender direito àquela altura da vida, mas se construiria e se edificaria dia após dia na minha vida. Eu era Corinthiano! Mais um Corinthiano no meio daquela massa.
Meu sovaco suava. Sentia o cheiro da minha camiseta na altura das axilas e sentia um cheiro forte de suor que saía de mim. Olhava de novo para o meu pai e ele sorria. Sentia-me livre. Eu podia gritar o palavrão que quisesse. E assim eu fazia. Não deixava por menos. Porra, caralho, torcida de cuzão. Quem manda nessa porra é a torcida do timão! Por-cú Vai tomar no cú! Segunda-feira é terça-feira, filho da puta é quem torce pro Palmeiras! Ouvia o xingamento de resposta, vindo do outro lado da arquibancada. Era legal. Era o sentimento de liberdade. Era a diversão que meu pai podia pagar. Porém, mesmo que ele pudesse pagar outra coisa mais sofisticada, eu não queria. Bastava me levar ao jogo do Corinthians.
Havia chegado às 13h. Esperava três horas olhando para o gramado. O melhor momento era a festa da torcida quando o Corinthians subia para o campo. Dali a pouco estourava o último rojão, sempre o mais grave de todos: BUM! Subia a fumaça para o céu. Todos gritavam Vai Corinthians! O jogo iria começar. Passada aquela bagunça toda ninguém havia morrido. Ninguém havia se machucado. Era só uma festa. Havia um sentido muito especial. Não era a festa que haviam feito para nós. Era a festa que a Fiel tinha feito para o Corinthians. Tratava-se de ser ativo e participativo. De interferir na história. De ter protagonismo. De existir. Tal qual aquele último morteiro da bateria de fogos: BUM!
Eu acordo em 2017 e vejo a arquibancada vazia. A festa acabou. Estamos na ilegalidade. Fomos proibidos de ser quem somos. De ter cultura própria. De fazer aquilo que se gosta e que faz sentido na nossa vida. De existir. Devemos nos adequar aos novos tempos. Precisamos ser recivilizados pelo neoliberalismo. Estar adaptados às leis de mercado, já que o futebol é mercado. As leis do mercado, exteriores ao que é humano e sua natureza, funcionam como a lei de um império distante, que esmaga quem somos e nos obriga a seguir leis estranhas que não nos fazem sentido.
É evidente que o tal sinalizador não é um problema. Mas se tornou um símbolo. E os símbolos tem poder.
Acender um sinalizador não é um gesto em si mesmo. Quem acende quer dizer algo. É um grito de liberdade. De autodefesa. De rebeldia. O gesto legítimo de desobediência que brota quando não acreditamos em uma lei estúpida. Quando a lei imperdoavelmente entra em atrito com os costumes e a cultura. Quando uma lei vai de encontro com outras leis fundamentais que nos garantem a liberdade e a livre expressão.
Porque a livre expressão não pode por em risco blá blá blá. Da mesma forma de que para quem acende o sinalizador é apenas um símbolo, para quem quer proibir também o é. O proibicionismo e a policialização do Estado se servem de diferentes medos e angústias que estão na sociedade para controlar, eliminar convergências, encontros, rebeldias, insubordinações, confabulações, formulações e sentido de liberdade.
A borrachada no povo que acende sinalizador provoca aplausos dos espíritos servis. As multas aplicadas pela justiça desportiva deixa nítido que ela está a serviço de outros interesses grandiosos, pois nos divide. Joga-nos uns contra os outros. Cria desentendimentos. Deixamos de refletir sobre o mérito das coisas. Se a luta é justa ou se a justiça é repressiva. Passamos a culpar uns aos outros pela multa que o clube levou ou pela interdição de parte do estádio. Nos dividimos e perdemos a capacidade de questionar o absurdo que está ocorrendo.
Logo, a polícia recebe elogios da cobertura jornalística da imprensa velha por descer a porrada nos marginais que tomaram conta do futebol e tiraram as famílias de bem dos estádios. Sim, a tradicional família branca. Aquela que detém o poder. Que é dona de tudo e de todos. Das universidades, dos aeroportos, dos bairros bons e dos camarotes. As famílias que habitavam os estádios antes deles serem ocupados pela gentalha. Tal qual quando esse era o esporte da oligarquia. Quando filho de mãe solteira não podia entrar. Quando preto tinha que passar pó de arroz na cara pra poder jogar. Essa é a nostalgia dessa gente.
Amigo corinthiano, basta olhar um pouquinho para nossa história. O Corinthians nasceu justamente para derrotar esses preconceitos. Para se intrometer e estragar a festa da oligarquia paulistana. Somos necessariamente incômodos. Depois do primeiro título da nossa história em 1914, a liga aristocrática se dissolveu e formou outra liga sem o Corinthians, quase provocando o encerramento das nossas atividades. Por pouco não desaparecemos, depois de incomodar a tradicional família paulista. Não só resistimos como voltamos mais fortes e nos fizemos Corinthians justamente com a força do operariado e de quem não tinha lugar na sociedade.
Por favor, perdoem minha sinceridade. Respeito as diferentes formas de pensar. Mas não existe contrassenso maior do que corinthiano coxinha. Corinthiano aplaudindo a polícia batendo em corinthiano. Dá vontade de chorar, na verdade. Claro que o aplauso dura pouco. Logo em seguida existe a pausa para mais uma self, fazendo biquinho com a torcida organizada ao fundo, como paisagem.
O problema não é o sinalizador. Ele é só um bastião. O que está em jogo é justamente esse sentido de liberdade que descrevi no primeiro parágrafo. O protagonismo. É a gente existir como povo.
O que está em jogo é nos transformar em espectadores enquanto insistimos em ser agentes. É transformar em espetáculo o que é um acontecimento histórico. E destruir os instrumentos de solidariedade que nos une. Que sejamos apenas seres individuais e individualistas sem nenhum sentido de coletividade e pertencimento. É o direito de protestar, gritar, xingar, nos expressar em faixas, camisetas ou berros. Nossas vozes precisam ser caladas. Temos preservado o direito de aplaudir. Isso sim. Seja no Estádio, seja no Estado. Aplaudir é o que nos cabe. As vozes que podem permanecer são tão somente aquelas que são mediadas pelas elites. Que escolhem por nós o que cantar, o que dançar, o que vestir, o que comer e que horas devemos dormir.
O Corinthians deveria ser sabedor de seu tamanho. Ao invés de ficar pagando multas que irrigam os cofres da CBF, deveria assumir sua responsabilidade histórica e não apenas ser reativo. Não existe problema da torcida. Primeiro porque a torcida não é um problema, como alguns querem acreditar. Segundo porque não existe torcida e Corinthians como coisa separada. Corinthians e torcida são a mesma coisa. Somos Corinthians, no plural. Somos os Corinthians.
Se isso serve na hora de negociar as cotas de tevê, deve ser também no momento em que é necessário que a instituição represente seu povo frente aos órgãos competentes. Até porque o clube é o maior lesado pelo proibicionismo que toma conta desse estado. O Corinthians tem frustrada grande quantidade de receitas que poderiam ajudar a pagar a Arena porque não pode realizar eventos no entorno do estádio. Aquela tal Fan Fest. Não pode porque onde há povo, onde há aglomeração, onde há encontro e convergências, há também intervenção policial. É assim que funciona esse estado. E o Corinthians aceita passivamente. Não assume o seu papel e desconhece o tamanho que tem. Não é favor nenhum ter o Metrô meia hora a mais depois do jogo. Quem está ali no estádio é o povo brasileiro. É quem sustenta esse estado e merece respeito.
A luz que se levanta não é a de um material descartável inofensivo comprado em qualquer loja de festa. A luz que ilumina a Fiel Torcida Corinthiana é a chama da liberdade. Esse mesmo artefato, quando aceso em outras torcidas do Brasil e do mundo, não causa incômodo algum. O que se quer apagar, na verdade, é a força e o espírito rebelde da torcida do Corinthians. Querem nos calar.
Podem apagar os sinalizadores, aplicar multas, interditar espaços. Nunca poderão apagar aquilo que está no nosso coração e na nossa mente. O que ilumina nossa arquibancada são as ideias da nossa gente. É o amor que a gente tem no coração. Jamais vão poder apagar aquilo que guardamos na memória. Aquilo que vivemos com o Corinthians. A nossa história. A nossa cultura. O que faz sentido para cada um de nós. Essa é nossa vida. O Corinthians é o que nós somos. O que está na cabeça da nossa gente, para sempre estará aceso! Essa chama jamais se apagará!

Campo Dr. Socrates

- Maio 2017

CAMPO GUERREIRO DR. SOCRATES        


Dois amigos queridos. Dois militantes e ativistas apaixonados, um pelo outro e também por seus ideais, conquistaram aquele sonho que muito de nós temos. Um recanto no meio do mato pra respirar ar puro e gozar a vida. Estão literalmente construindo à próprio punho. Lutando juntos a cada dia.
Eles me fizeram um pedido.
O campinho de futebol deles foi batizado com o nome do Doutor Sócrates. Sim, além de todas as qualidades eles são grandes corinthianos.
O pedido foi que eu esc
revesse um texto falando do Sócrates para eles colocarem numa placa ao lado do campinho, onde vão compartilhar momentos felizes com seus amigos, companheiros e camaradas.
E eles realmente fizeram tudo muito bonitinho. 
Fiquei muito emocionado e honrado por fazer parte de alguma forma desse momento. Ainda colocaram uma fotinho minha na placa. Fiquei todo besta. 
Muito obrigado ao casal 
Pris Pri Priscila Prix e Alex Capuano. Vocês são muito queridos.

Esses são os versos que rabisquei.
Sócrates Brasileiro era Sócrates, mas acima de tudo brasileiro.
Era filósofo, mas o lance de ser brasileiro lhe trazia outras responsabilidades.
Aprendeu com o Carlos Marx que não basta entender as coisas do mundo, mas que é preciso transformá-lo.
Jogou no Coringão do nosso Coração.
Quando ali se viu, não demorou a perceber que tinha tomado o poder. Que tinha feito a revolução. Que havia se consagrado como um grande líder.
No Corinthians, esse movimento revolucionário, entendeu que estava falando com as massas. Que era parte fundamental da história de um povo. Que tinha um imenso potencial de comunicação e de transformação da realidade.
Foi líder da Democracia Corinthiana.
Se insurgiu aos poderosos do futebol. Enfrentou a ditadura.
Jogou muito. Melhor que todos. Inovador, inteligente, criativo. Era prova viva da capacidade da nossa gente.
No Corinthians a gente vive o jogo como joga a vida da gente.
A vida, essa grande aventura. Cheia de coisas que também acontecem no jogo de futebol. O futebol, coisa de vida ou morte, onde vivenciamos as grandes representações da nossa existência humana.
Sócrates jogou bola. Ali foi um grande gênio. Viveu a vida. Aventurou-se. Lutou por seus ideais. Combateu injustiças. Acreditou na humanidade.
Essa campinho é o espaço pra viver um pouco da vida que Doutor viveu aos montes. Lugar de jogar bola. Lugar de confabulações políticas. De boemia literária. É pra jogar futebol e tomar cerveja, não necessariamente nessa ordem.
Esse campinho é lugar pra respirar ar puro. Encher o peito, elevar os pensamentos, cumprir nosso propósito na terra que é gozar a vida e ser feliz. Lugar para se encher de energia e partir pra luta. Pois bem, sabemos que tem tanta gente sem chão. Sem espaço pra ser feliz. Buscando um pouco de dignidade.
Aqui todos nós somos um pouco o Doutor Sócrates Brasileiro. Sejamos craques, sejamos geniais, sejamos revolucionários!



Tentaram, mas não conseguiram

- Fevereiro de 2017

Não triunfou a tentativa de golpe no Corinthians. Ainda bem. 
Digo golpe porque sou coerente com minha posição política em âmbito nacional.
Impeachment não pode ser saída para gestão que anda mal. Se assim for, viveremos em permanente e inevitável insegurança institucional. Mergulhamos num ciclo de golpes e contra golpes. Lamento inclusive ao ver muitos corinthianos que tiveram coerência em preservar o clube desse processo traumático, mesmo guardando imensas discordâncias com a gestão do Presidente Roberto de Andrade, não consigam raciocinar da mesma forma na vida republicana. Mas, falemos de Corinthians.
Em torno do projeto do impeachment, se articularam algumas forças tão conservadoras e tão atrasadas que na prática assustou o corinthiano que logo percebeu o que estaria por vir. Vejam que o movimento ficou praticamente restrito ao lado de dentro do Parque São Jorge. Foi incapaz de mobilizar a torcida corintiana que, mesmo descontente, infeliz e extremamente preocupada com o futuro do Corinthians, percebeu que ali se articulavam interesses sazonais pelo poder e que o impeachment não significaria um avanço para o clube.
Mas, de nenhuma forma, o não acolhimento do impeachment pode ser encarado como uma manifestação de apoio à atual gestão. Encarar dessa forma seria o maior dos erros.
O cargo de presidente do Corinthians é necessariamente político, não somente um cargo administrativo. O presidente tem por obrigação ser um articulador e perseguir ser um elemento de unidade não só do associado, mas da comunidade corinthiana. Um presidente tem que falar, comparecer, conversar, estar presente e conectado com tudo que envolve a vida do Corinthians, para além de suas funções burocráticas.
Sempre se falou que a torcida carrega o time nas costas e que o corinthiano não vive de títulos, vive de Corinthians. Isso não deixou de existir. Agora, mais do que nunca, o clube se ressente da ausência do torcedor nos jogos e precisa do apoio da massa para inflamar o time nesse momento de carência e dificuldades.
Mas sejam honestos, com qual torcedor o clube têm se comunicado nos últimos anos? Esse "público-alvo" que persegue experiências de entretenimento, agora tem mais o que fazer. 
O corinthiano apaixonado pode sim ir com o time até debaixo d'água, mas precisa acreditar no projeto, precisa ser respeitado, não apenas ser chamado à dar um apoio cego quando isso parece ser conveniente, pois o negócio em que tanta gente cresceu os olhos anda mal.
Resumindo, se o time precisa de apoio, se o estádio agora precisa de público, se a Arena tem que ser paga, antes de mais nada deve-se resolver a questão do acesso e ocupação do estádio. Não é só o tal "naming right" ou camarote e loja.
Se o que se espera agora é o apoio do torcedor, até para a Arena ser sustentável, que não se enxergue a torcida do Corinthians, esse movimento social, expressão cultural da nossa sociedade, como mero consumidor, porque não é. 
Tratar o Corinthians como produto e o torcedor como consumidor, além de burro é um desperdício, inclusive se o objetivo é aumentar a arrecadação. 
Desconhecer o perfil e o caráter da torcida do Corinthians, é ser incapaz de fazer do Corinthians o "grande negócio" que é o projeto de tanta gente que só enxerga o mundo dessa forma.
Vou dar um exemplo: se o ingresso do jogo para ver o Ronaldo jogar custa quatrocentos reais, então, como consumidor, quanto pagaria para ver o Jô? Se na Libertadores custa os mesmos quatrocentos, quanto eu pagaria, como um "caçador de entretenimento" para ver o jogo contra o Novorizontino?
Se o que orienta a relação do clube com o torcedor é apenas a maximização dos lucros, por que o torcedor faria o inverso?
Quando o ingresso encareceu demais, o público que vai ao estádio já tinha diminuído, mesmo com a Arena lotada. Ninguém percebeu, mas ao jogo iam sempre os mesmos torcedores cadastrados. 
Quando o ingresso ficou mais caro, o Corinthiano aprendeu a escolher jogos para ir. Não dava mais para ir em todos. Foi uma década escolhendo jogo. Isso mudou muito a cultura do torcedor. 
Uma geração inteira de crianças e jovens não tinha a menor condição de frequentar um estádio. Deixou de ser barato para um adulto levar um menor consigo. O público envelheceu. Fica difícil para um jovem, começando a sua vida, ter grana para ir ao jogo.
Tem a questão da arquitetura do estádio que também não é inclusiva. Nem me refiro às instalações, mas à arquitetura mesmo que separa e afasta o torcedor. Esse é outro assunto. Mas são coisas que teremos s saber lidar daqui por diante.
Mas por que eu dei tanta importância para a questão do torcedor e do acesso ao estádio, entre os principais desafios dessa gestão que quase caiu?
Se a votação no Conselho foi suficiente para evitar o impeachment, para sair da crise que nos encontramos precisaremos de muito mais. Já que tem gente que não gosta de falar de torcida, então digamos que a relação com o consumidor anda muito ruim. É preciso melhorar muito.
Quem vive falando há anos sobre a questão da elitização do futebol, tem sido tratado como fundamentalista, radical, contra-mão da história. Quem valoriza às tradições do clube é tratado como romântico e ingênuo.
Os marketeiros e planilheiros consideram ter o monopólio do conhecimento sobre economia de mercado. Mas quando as coisas vão mal e não saem conforme o planejado, eles tendem a culpar à realidade que não cabe na planilha deles. A planilha está certa, errada é a realidade.
Esse ano se comemora quarenta anos do gol mais importante da história do futebol.
Certamente a patrocinadora vai lançar mais uma camisa colorida. A torcida esperando para vestir a camisa do Basílio, mas certamente nossos gênios do marketing tem outro planejamento. Não veremos nosso time jogar com a camisa dois tradicional. São uns gênios. Sorte das empresas que estão produzindo réplicas e ganhando um bom dinheiro.
Tudo isso pra dizer que nossos capitalistas são uma bosta. Não entendem nada de capitalismo.
Aparentemente, essa segunda parte do meu texto não tem nada a ver com a questão do impeachment.
Porém, espero sinceramente que o Presidente Roberto perceba que é preciso começar de novo em muitas coisas. Se envolver naquilo que é importante na vida do torcedor.
São tantos problemas no Corinthians que daria para escrever um livro.
Inaugurar um novo momento é preciso. Melhorar a comunicação com a torcida e criar um grande pacto para sairmos da atual situação é mais do que necessário. 
É preciso mobilizar as energias que existem e resistem no Corinthians para superar esse momento que parece ser ameaçador.
Em suma, a força está dentro de nós. Juntos podemos superar. É preciso mudar essa agenda derrotista, até para que novos negócios e receitas apareçam. Mas o presidente tem que tomar um banho de povo pra poder entender.

Foi uma vitória Espartana

- Fevereiro de 2017

Foi uma vitoria espartana do Corinthians.


Como a dos trezentos soldados de Esparta, enfrentando o Império persa, entregando-se corajosamente ao encontro de seu glorioso destino. Em menor número. Com menos recursos. E se o destino inevitável fosse que tombássemos em Itaquera, seria com muita honra, pois morrer como grandes homens seria o maior dos prêmios da guerra.
Foi também uma vitória de Samurai. Com espadas em riste. Com a decência dos grandes guerreiros. 
Se o Corinthians tivesse dasafortunadamente perdido por quatro gols em suas redes, ainda sim seria uma derrota com grande decência, pois, me permitam dizer, o Corinthians, jogou para caralho!
Há tempos não se via o Corinthians assim.
Por escolha do técnico ou pela sucessão de acontecimentos, o Corinthians se livrou de uma vez só de um monte de jogadores tico tico. Moleques peladeiros. Fracos. Sem alma. Arrivistas.
Dizem que toda crise carrega consigo grandes oportunidades. E assim foi. Talvez porque não tivéssemos mais jogadores de grife, preenchemos, na marra, o gramado de Itaquera com moleques do terrão. Com outros tantos que pareciam ter a sola do pé vermelha por terem corrido entre os nossos desde sempre. 
Jogamos contra o Palmeiras com jogadores modestos, como tantas vezes em nossa história. Os coringões e coringonas mais antigos sabem muito bem.
Vimos o Cássio novamente em sinergia com os astros. O Valter é sim um grande goleiro. Talvez tecnicamente até melhor. Mas, o Cassião nasceu com o cu virado pra lua. Tem sorte e tem estrela, foi escolhido por Deus, o que se há de fazer?
Vimos uma dupla de zaga firme. Tão íntegra, competente e inesgotável que irritou o time palmeirense que numa verdadeira porcada, quase no fim do jogo, conferiu uma cotovelada desleal no Pablo.
Gabriel, que tem o pai corinthiano, o que significa rigorosamente ser também corinthiano, não precisou que explicassem o que significa ser o "5" do Corinthians. O volante é o FIEL torcedor Corinthiano em campo. Muitos ídolos temos que jogaram naquela parte do campo. Nem precisa ser tão bom de bola, necessário mesmo é ter entrega. Jogou muito bem até ser expulso no roubo mais esdrúxulo já visto no futebol.
Romero novamente um leão.
De resto, todos ali vieram do terrão. Foi lindo de ver. Molecada que já conhece o Corinthians. Tem a nossa cara. Se parecem com quem está na arquibancada. Que fantástico ver o Leo Jabá lutando e vencendo os jogadores de grife do outro Parque. O Maycon. Como podia ter ficado de fora tanto tempo? Uma coisa que eu não entendo, se é pra gastar milhões para trazer um jogador meia boca, por que não apostar na nossa base? Se vier alguém pra resolver, tudo bem. Mas pra compor elenco, melhor apostar nas pratas da casa.
Disse que todos os outros eram do terrão. Isso mesmo, o Kazin também veio do terrão. Uma unidade avançada que temos do terrão em Londres em parceria com o Corinthian-Casuals.
Na ausência do Casão, temos o Kazin. Que legal ver esse cara. Nasceu para o Corinthians.
Aí o Guerra que custou os tubos para os porcos ia dominar a bola. O Maycon veio como um raio. Correu como nunca. Tão veloz que o palmeirense não se deu conta. Num golpe ágil, ele roubou a bola do Guerra. O Jô, que dizem ser corinthiano fanático, mas nunca havia conseguido fazer uma grande atuação com a camisa do coração. Estava chegando o momento de sua rendição. O moleque humilde saiu correndo de trás do meio campo. Com suas pernas compridas correu para sua consagração. Maycon viu seu companheiro que também veio da base. Olhou pra ele. Por duas vezes tentou tocar. Na primeira não deu. No segundo toque a bola passa entre as pernas do Zé Roberto. Enfim a bola chega ao Jô. Seria agora o seu grande momento? Não perde essa, Jô. Passou um filme na cabeça de todo corinthiano. Fomos roubados desde o início do jogo. Jogando com um a menos. Com um time inferior tecnicamente. Contra milhões e milhões de dólares. Contra o juiz. Contra a mídia que deseja ver o Corinthians de joelhos, contra o mal agouro dos anticorinthianos que querem nossa caveira. Contra tudo e contra todos.
A bola chegou aos pés do Jô. Suas pernas pesavam 100 anos de derby. Ele parou a bola. Encontrou um espaço entre as pernas do Fernando Prass. Chutou a bola. Ela passou. Vai pro gol. Bateu na rede. É gol! Puta que pariu foi gol! 
O grito de todo corinthiano veio foi do estômago, não foi da garganta. Gooooool!
Gritos, pulos, abraços e choro.
O Corinthians ainda é o Corinthians minha gente!
É o nosso Coringão que a gente aprendeu a amar. 
Ele ainda existe. Joga o jogo como a gente joga a vida da gente. Com raça, com amor, superando os obstáculos e também as grandes injustiças.
A gente ainda se vê no Corinthians. E a gente ainda pode levar a vida da gente com o Corinthians dentro de nós.
Não dá pra ser de outro jeito.
Não nascemos para ser esnobes. Não nascemos para grife. Não nascemos para ter jogador gourmet. 
Não podemos nunca nos dar ao luxo de sermos arrogantes.
Aqui tem que ser na humildade. Senão Deus castiga.
Que esse seja um novo momento de comunhão e fraternidade entre os corinthianos.
Que encontremos nossa paz interior.
O corinthianismo resiste!
Com as graças do santo guerreiro, levantemos todos a espada de São Jorge e, com muita humildade, sejamos mais Corinthians do que nunca.
Esse é o CORINTHIANS que aprendemos a amar. Agora de mãos dadas, em congraçamento gritemos: VAI CORINTHIANS!

Nós somos

- Outubro de 2016

NÓS SOMOS


Nós somos tudo aquilo que vocês mais detestam.
Somos aquilo que deixa vocês com medo.
Porque vocês não entendem, não sabem ao certo como enxergamos o mundo.
Não conseguem prever como pensamos. 
Isso os apavora. 
Não conseguem nos controlar, porque sequer imaginam o nosso próximo passo. 
Somos imprevisíveis porque não fazemos parte do mundo de vocês.
Somos mais ameaçadores para os poderosos do que qualquer organização política.
Nós somos a ideia que não tem dono. Somos o pileque que extravasa. Somos o que se fala pelas esquinas. Somos o que anda na cabeça do povão. 
Somos o risco que vale à pena. Somos a consciência de classe possível nesse mundo de alienação. Somos o inconsciente coletivo. Somos o empoderamento.
Nós somos a voz de quem não tem voz. Somos um movimento social com trinta milhões de líderes.
Nós somos a anticolonização. Nós somos o clube dos refugiados. Nós somos quem sofreu na seca, nas guerras, no tronco. 
Nós somos uma Mesquita que foi bombardeada.
Nós somos o judeu esmagado no campo de concentração.
Nós somos o negro escravizado. Amontoados num navio negreiro ou numa cela de cadeia.
Nós somos a mulher que foi espancada pelo marido.
Somos o pobre espremido no transporte público.
Nós somos a reputação destruída pela mídia bandida.
Nós somos o pai de família que ficou desempregado.
E vocês nos querem com medo. Nos querem humilhados.
Vocês nos querem sem condições de acreditar em nós mesmos.
Por isso nossa vitória ofende tanto vocês! Por isso as nossas glórias acabam por ser desmerecidas. 
Por isso a nossa casa "foi dada de presente", num suposto conluio qualquer.
Caras de pau! Justo vocês que roubaram um país inteiro! Que tomaram todas as nossas riquezas e viraram donos de quase tudo aquilo que seria propriedade de todos. Que geraram milhões de miseráveis. Que num país tão grande, com tanta terra, deixaram milhões pessoas vivendo nas ruas ou nos barrancos.
Hipócritas!
Vocês querem, mas não conseguem, dobrar nossa coluna.
Por isso nossos irmãos são torturados por genocidas com credencial para exterminar o povo. Fazem isso todos os dias. No estádio ou na favela. Rastejam vergonhosamente para os poderosos e pisam do pescoço de quem é pobre. Capitães do Mato!
Tudo isso, sob o sorriso cúmplice de quem se faz de santo, mas vive com ódio no coração. De quem diz ser "de família", mas despreza a mãe pobre que chora a perda de um filho. Que ajoelha em nome de Deus, mas é incapaz de sentir amor pelo próximo. Que reza apenas pela própria conta bancária.
Sim, nós somos aqueles que "mereceram apanhar". Somos da turma onde "não tem santo". Somos aquela parte da sociedade que ninguém se importa quando o morro desliza. Somos a senhora negra que não é recolhida pela ambulância. Somos quem não merece advogado. Somos a tragédia que vira estatística. Somos quem "tem mais é que morrer". 
Quem conhece nossa história sabe que já nascemos estigmatizados. Foi assim desde sempre.
O desprezo de vocês, apenas nos torna mais fortes.
O ódio de vocês nos faz cada dia mais unidos como irmãos. Como filhos de Deus.
Nossos instrumentos de solidariedade são indestrutíveis.
Sim, nós somos a Fiel Torcida.
Ninguém vai render o nosso amor pelo Corinthians, simplesmente porque nós somos tudo isso que já foi dito, até mesmo quando não sabemos ao certo que somos.
Porque nós não somos matéria. Não somos um corpo físico torturado no Maracanã, nem o concreto do estádio de Itaquera.
Nós pairamos no ar. Nós somos a presença de espírito. Vocês nunca vão nos destruir porque habitamos nas mentes rebeldes e nos sonhos encantados de muitos outros que irão se levantar em seu nome, Sport Club Corinthians Paulista. A nossa casa, a nossa pátria, a nossa família, o nosso mundo. 
A nossa vida!
Vai Corinthians!

Porque o Corinthiano amou o Tite

- Junho de 2016

Por que o Corinthiano amou tanto o Tite?
Os coringões e coringonas espalhados por aí, nunca ficaram gritando que o Tite é o maior técnico do Brasil.
Talvez, os corinthianos sequer tivessem certeza se o Tite era ou não muito melhor que os outros treinadores de futebol.
Na verdade, isso nem era importante.
Tanto faz se o Tite tem ou não mais recursos que os outros.
Como numa relação amorosa duradoura, o fundamental é que o Tite era o melhor para nós CORINTHIANOS. Dane-se o que os outros vão pensar.
Mas como todo amor que prospera, passa a "crescer os olhos" dos outros.
Antes de assumir novamente o Corinthians em 2011, verdade seja dita, o Tite já tinha virado refugo de outros tantos clubes do Brasil.
Ninguém nem olhava mais para ele com tanta atenção. Coisas fantásticas aconteceram e nosso amor foi tão bonito, que num passe de mágica, todo mundo começou a querer nos separar. A Seleção, essa grande falsa e mentirosa conseguiu.
O corinthiano não tinha um amor cego pelo Tite. A gente via muito bem os seus defeitos. Tite nunca foi um Deus alvinegro. A relação do torcedor com ele foi diferente de todos os outros ídolos históricos do Corinthians. Tite nunca foi Deus porque seu forte sempre foi a humanidade. 
Compartilhamos suas aflições, decepções, erros, falhas, conquistas e glórias.
Mas a torcida do Corinthians tinha com o Tite o fundamental em qualquer relação: Confiança!
Nós podíamos até discordar, mas em nenhum momento a torcida duvidou das decisões do Tite, por mais difícil que elas tenham sido. Quando ele errava a gente sabia que não era de sacanagem. A gente sabia que ele estava sempre tomando suas decisões de maneira justa. Sem interesses colaterais, tão comuns no futebol. 
Tite no Corinthians foi um sacerdote.
O Corinthians é o nosso amor vagabundo.
Mas com o Tite era esse amor fraternal e equilibrado.
Tite se foi. Agora é passado.
Necessário se faz olhar para o futuro. 
Espero sinceramente que tenhamos um técnico para o futuro, com olhar para o futuro e superemos esse lodo da geração de técnicos que ajudaram a afundar o futebol brasileiro. Gente que vem pra ganhar uma fortuna e não consegue se estabelecer nem no futebol chinês. Pensamentos arcaicos, covardes, malandros, colonizados e atrasados.
Tomara tenhamos a sorte de encontrar um bom nome para nosso futuro.
Obrigado por tudo, Tite. 
Mas a vida continua. É preciso seguir à diante